A narração do fato e a construção da notícia: entre a razão, a emoção e o imaginário
- Silvana Schultze
- 20 de out. de 2025
- 2 min de leitura

Ler A Narração do Fato – Notas para uma teoria do acontecimento, de Muniz Sodré, é revisitar o próprio sentido do jornalismo. O autor parte da ideia de que conhecer um fato é um processo tanto racional quanto sensível, condicionado pela formação e pela posição social de quem o apreende. Isso significa que não há neutralidade absoluta na observação e no relato: todo olhar é situado, e toda narrativa nasce de um ponto de vista.
No campo jornalístico, essa constatação tem implicações profundas. Desde o século XIX, o jornalismo moderno se consolidou sob o ideal da objetividade — a crença de que seria possível relatar os fatos “como eles são”. Esse ideal se transformou em uma espécie de pacto simbólico entre jornalistas e público, sustentando a credibilidade da profissão. O leitor confia porque acredita que o repórter fala em nome da verdade. Mas, como lembra Sodré, essa “verdade” é a do senso comum — a correspondência entre o enunciado e os fatos do mundo —, e não uma verdade absoluta.
O autor também observa que a forma da imprensa moderna é essencialmente burguesa e europeia, aperfeiçoada tecnicamente pelos norte-americanos. Essa herança define o modo como os fatos são hierarquizados, narrados e visualmente apresentados. Mesmo as inovações gráficas e textuais nos jornais latino-americanos, afirma Sodré, derivam das experiências da indústria jornalística dos Estados Unidos. Ou seja, há uma matriz ideológica na própria estrutura da notícia.
Outro ponto central do livro é a constatação de que a notícia — embora proclamada como “pura informação” — está permeada de procedimentos retóricos e imaginativos. O texto jornalístico não é uma transcrição do real, mas uma construção mediada pela linguagem, que pode recorrer a recursos próximos da literatura para tornar o acontecimento mais compreensível e significativo. Isso não implica falsificação, mas revela que o jornalismo é, em parte, uma forma de interpretação.
Na era digital, essa reflexão ganha nova urgência. A crise das formas tradicionais de jornalismo diante da internet coloca em xeque o poder das redações de definir o que é notícia. O fluxo contínuo de informações rompe as hierarquias editoriais e dilui a fronteira entre o que é factual, opinativo ou simplesmente entretenimento. Com a ascensão da mídia eletrônica e das redes sociais, o peso da emoção e do prazer cresceu, enquanto a sistematização cognitiva da informação perdeu espaço.
O resultado é um jornalismo cada vez mais permeado pelo imaginário social, no qual o público “imaginado” pelas métricas de audiência substitui o leitor concreto. A imagem — antes restrita à televisão — contamina o texto impresso, impondo uma lógica de espetacularização. Em meio a esse cenário, A Narração do Fato convida à autocrítica: o desafio do jornalista contemporâneo talvez não seja eliminar a subjetividade, mas reconhecê-la, compreendendo que narrar o fato é, sempre, um ato de mediação entre o mundo e o olhar que o interpreta.


Comentários