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O olhar por trás da pauta: quando a objetividade encontra a subjetividade no jornalismo

Toda reportagem começa antes da apuração, da entrevista ou da redação do texto. Ela nasce de uma pauta — um esboço de ideia que guia o trabalho do jornalista. A pauta é o ponto de partida, a ponte entre a curiosidade individual e o interesse público. Elaborá-la parece, à primeira vista, um exercício técnico: definir o tema, o enfoque, as fontes e o formato. No entanto, por trás dessa estrutura metódica, existe um elemento que nenhuma técnica substitui — o olhar pessoal do jornalista.

Criar uma pauta não é apenas organizar informações, mas escolher o que merece ser investigado e de que forma. Essa escolha nunca é neutra. É influenciada pela trajetória, pelas experiências, pelas referências culturais e até pelas crenças de quem a faz. Dois jornalistas podem partir do mesmo fato e chegar a pautas completamente distintas, porque cada um enxerga o mundo por um filtro próprio. Essa singularidade é o que dá diversidade e profundidade ao jornalismo — e o que transforma a pauta em um reflexo da subjetividade de quem a propõe.

É importante reconhecer essa dimensão subjetiva não como uma falha, mas como uma característica essencial da prática jornalística. O olhar sensível e único de cada profissional é o que permite descobrir histórias escondidas nas entrelinhas, dar voz a personagens invisibilizados e perceber nuances que passam despercebidas ao senso comum. A técnica organiza o processo; a subjetividade dá sentido.

Por outro lado, essa mesma subjetividade precisa ser acompanhada de autocrítica. O jornalista deve estar atento aos próprios vieses — e todos nós temos alguns — para que eles não determinem de forma inconsciente o enquadramento da história. Criar pautas responsáveis é exercitar empatia, diversidade de fontes e disposição para escutar o que não confirma nossas expectativas. É nesse equilíbrio entre a sensibilidade pessoal e o compromisso ético que se constrói um jornalismo mais plural.

Nas redações, a reunião de pauta é o espaço onde diferentes olhares se encontram. Cada repórter traz sua bagagem e propõe temas que refletem suas vivências e preocupações. O confronto de ideias — quando feito com respeito — ajuda a lapidar as pautas e a reduzir distorções, tornando a cobertura mais rica e equilibrada.

Já para quem atua de forma independente — em blogs, podcasts ou newsletters —, o processo é ainda mais introspectivo. A pauta surge de observações cotidianas, experiências pessoais e inquietações próprias. O desafio, nesse caso, é transformar algo particular em um tema de relevância coletiva, sem perder autenticidade.

No fim das contas, criar uma pauta é mais do que um exercício de planejamento: é um gesto de interpretação do mundo. É a tentativa de traduzir uma percepção individual em algo que dialogue com o público e contribua para o debate social. Quando objetividade e subjetividade caminham juntas, o jornalismo se torna mais humano — e mais verdadeiro.

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