Tecnologia e Ética no Jornalismo: novos recursos, velhos dilemas
- Silvana Schultze
- 1 de jul. de 2025
- 2 min de leitura

O artigo “Ética e transformações no Jornalismo – A persistência de antigos dilemas frente à inserção tecnológica”, de Edgard Patrício, discute como a presença das tecnologias digitais, em especial a internet e dispositivos como a câmera escondida, afeta os dilemas éticos enfrentados pelos jornalistas.
A partir da análise de episódios específicos, como o uso da câmera oculta por um programa televisivo em 2007, o autor argumenta que, embora essas tecnologias provoquem debates acalorados e evidenciem tensões morais, elas não criam novos dilemas éticos propriamente ditos. O que se observa é a intensificação de questões já existentes na prática jornalística, como os conflitos entre o interesse público e o respeito à privacidade, ou entre a busca por audiência e o compromisso com a verdade.
A pesquisa se apoia em entrevistas com quinze jornalistas de Fortaleza, com o objetivo de compreender como eles percebem e enfrentam dilemas éticos em diferentes momentos do fazer jornalístico, desde a escolha da pauta até a edição final.
O estudo revela que a influência da tecnologia no comportamento ético desses profissionais é limitada e que as decisões mais críticas costumam ocorrer durante a apuração, especialmente nos contatos com as fontes. Os depoimentos indicam que, independentemente da presença de recursos tecnológicos, os jornalistas se deparam com desafios éticos recorrentes, como manipulações na edição de imagens, pressões para tratar certos temas de modo sensacionalista ou ainda a necessidade de conciliar os valores pessoais com as exigências do veículo de comunicação.
O autor propõe uma cartografia dos dilemas éticos nas diversas etapas do processo jornalístico e destaca a importância da reflexão individual e da formação ética continuada. Ele recorre à proposta de Goodwin, que sugere um conjunto de perguntas orientadoras que o jornalista pode se fazer ao tomar decisões éticas, como considerar quem será afetado, se há alternativas possíveis, como gostaria de ser lembrado e se a ação tomada está alinhada com os princípios do bom jornalismo.
O texto conclui que os avanços tecnológicos não substituem os desafios éticos tradicionais da profissão, embora os tornem mais visíveis e, por vezes, mais complexos. A ética no jornalismo, portanto, deve ser pensada como um exercício constante de escolha, responsabilidade e reflexão crítica diante de um cenário em que as transformações técnicas, sociais e culturais estão em permanente movimento.

Comentários